LEISHMANIOSE
(Calazar)
É
doença infecto contagiosa que pode ser classificada como
zoonose, pelo fato de ser transmissível dos animais ao
homem, e vice e versa. O agente causal dessa zoonose, é
um protozoário, e como tal microscópico.
1
- Leishmania donovani (Laveran y Mesnil, 1903): Agente das Leishmanioses
viscerais, Calazar Indiano, Leishmaniose Infantil da Área
do Mediterrâneo e o Calazar Americano ou Leishmaniose visceral
americana.
2 - Leishmania canis (Cardamatis,1911): Leishmaniose visceral
dos cães e gatos.
3 - Leishmania infantum (Nicole, 1908): Calazar na área
do Mediterrâneo, hoje reconhecidamente idêntico ao
Calazar Indiano, de Wright.
4 - Leishmania tropical (Wright, 1903): Agente da Leishmaniose
cutânea ou botão do Oriente, Botão de Biskra
ou Botão de Aleppo.
5 - Leishmania braziliensis (Vianna, 1911): Determina a Leishmaniose
tegumentar americana, ou Leishmaniose cutaneomucosa, Espúndia,
Uta, Úlcera de Baurú, etc.
Todas
essas espécies de Leishmania já classificadas, têm
em comum o fato de necessitarem para se reproduzir e atingirem
a forma adulta, passarem por um hospedeiro invertebrado obrigatoriamente
um mosquito diptero do gênero Phlebotomo. Tal característica
de exigirem mais de um hospedeiro em seu ciclo evolutivo biológico,
lhes conferem em Parasitologia a denominação de
parasitas heteroxenos.
Os
mosquitos do gênero Phlebotomo, hospedeiros intermediários
desses parasitas unicelulares causadores dessas doenças,
são vulgarmente chamados no Brasil por Biriguís,
Mosquito Palha, Mosquito pólvora ou Cangalhinha, por serem
de pequeno porte, medindo em torno de 2 a 3 milímetros,
portanto menores que um pernilongo comum. Tais mosquitos tem hábitos
noturnos, atacando suas vítimas para sugar sangue em geral
no entardecer e começo da noite, e dessa picada transmitem
para o novo hospedeiro (animal ou o homem), a doença, que
assume duas formas distintas:
LEISHMANIOSE
CUTÂNEA OU TEGUMENTAR - Essa forma clínica da doença,
admite-se ser autóctone do Continente Americano. Os Índios
ceramistas, pré-colombianos do Perú, representam
em seus vasos numerosos estados patológicos, de modo que
o médico e o historiador encontram nesses "huacos
" possibilidade de identificação de diversas
enfermidades. No Perú é essa doença denominada
Uta, assim parecendo não haver dúvida a respeito
da existência da Leishmaniose tegumentar entre os habitantes
da América Pré-colombiana. No Brasil, já
no ano de 1885 foi a mesma observada e identificada ao Botão
de Biskra, pelo médico Brasileiro A. Cerqueira. Em 1895,
Breda, na Itália, descreveu-a em Italianos que, de S. Paulo,
haviam voltado para sua pátria. Em 1908, começaram
a afluir à Santa Casa de S. Paulo, numerosos doentes vindos
das regiões assoladas pela doença, e como em sua
maioria fosse procedentes da região Noroeste (Baurú),
ficou a doença conhecida por Úlcera de Baurú.
Apenas em 1909, Adolfo Lindeberg noticiou a descoberta do parasita
dessa doença, que ele identificou ao agente causal do Botão
do Oriente, descoberta posteriormente confirmada pelos cientistas
Brasileiros Carini e Paranhos.
LEISHMANIOSE
VISCERAL - O cientista Brasileiro Carlos Chagas, descobridor de
todo o ciclo da doença que hoje leva seu nome (Doença
de Chagas), percorrendo nos anos de 1911 e 1912 o Vale do Rio
Amazonas, suspeitou da ocorrência do Calazar, nessa região;
Nome esse que também é sinônimo dessa forma
clínica da doença Pesquisas de Evandro Chagas, irmão
de Carlos Chagas, também cientista, é inclusive
criador de um teste de soro-aglutinação para diagnóstico
dessa doença, permitindo identificar as diferentes espécies
de Leishmanias. Essa forma clínica (Visceral), é
aquela freqüentemente encontrada entre os animais sensíveis
como o cão ou o gato, além da cobaia utilizada em
laboratório.
O
mosquito hospedeiro intermediário, do gênero Flebótomo
( Phlebotomo), no qual gênero foram já descritos
várias espécies (P. Whitmani. P. Pessoai e P.migonei
entre outros), ao sugar sangue de um animal (ou do homem) infectado,
também de contamina, e em seus intestinos e glândulas
salivares esse protozoário se multiplica, sendo então
as chamadas formas de leptomonas encontradas no buco-faringe desses
mosquitos. Tais mosquitos, ao sugarem sangue posteriormente, pelo
fato de por assim dizer injetarem na picada da pele sua saliva,
por ser esta anti-coagulante e assim evitar que o sangue da sua
vítima se coagule, injetam nesse ato também tais
formas infectantes da Leishmania, a qual caindo da circulação
sanguínea desse novo hospedeiro (chamado porisso hospedeiro
definitivo), vai dessa forma reproduzir a doença, numa
das formas clínicas anteriormente citadas.
O
período chamado de incubação (período
que vai da picada pelo mosquito infectado até o aparecimento
dos primeiros sintomas) varia entre 10 e 25 dias, podendo, no
entretanto, chegar até um ano. Após esse período
aparecem em geral pápulas na pele do animal ou do homem
infectado, pápulas essas nada características, porém
proriginosas (coçam) determinando sensação
de calor e dor. Ocorre também nessa fase adenopatia (inflamação)
dos gânglios próximos a picada pelo mosquito. Nessa
ocasião, sendo feita punção desses gânglios
inflamados, deverão ser encontradas as formas infectantes
do protozoário. O gânglio linfático inflamado
se necrosa, e assim lesado acaba por vir a furo para evacuar esse
material purulento, ficando em seu local uma úlcera, denominada
de cancro espúndico.
Nessa
forma clínica a doença nessa fase é facilmente
diagnosticavel pela exibição de úlceras cutâneas
características. Em alguns casos, no entretanto, a doença
cutânea assume formas não ulcerosas, chamadas de
impetiginoide ou tuberiformes, além de verrugosas e franboesoides,
estas últimas assim denominadas pela sua semelhança
com a fruta framboesa . O evoluir dessa doença, sem tratamento
adequado, leva a lesões graves e deformantes, inclusive
com perdas irrecuperáveis muitas vezes do nariz e da epiderme
do rosto.
Na
sua forma visceral, as lesões sendo internas, principalmente
no baço, se traduzem por aumento de volume desse órgão
(esplenomegalia), além de febre e dor abdominal. Sua evolução
leva também a hepatomegalia (aumento de volume do fígado).
PROFILAXIA DA DOENÇA - A mais eficiente medida de prevenção
do mal, ainda é o combate ao mosquito hospedeiro intermediário,
impedindo-o de se multiplicar, pela aplicação de
inseticidas em seus criatórios . Paralelamente, isolamento
dos hospedeiros definitivos enfermos, ou seu tratamento quando
possível. Têm os mosquitos hospedeiros intermediários
(Flebótomos), uma característica peculiar: Atividade
crepuscular e no início da noite, quando tem atividade
intensa a procura de suas vítimas para serem sugadas, pois
é o sangue seu alimento, ou melhor, apenas as fêmeas
desses mosquitos nutrem-se de sangue. Já os machos desses
mosquitos por terem vida curta, alimentam-se de frutas silvestres
por breve período. Durante a fase do dia, procuram esses
mosquitos abrigo ou no interior das residências ou em matas
em local protegido dos ventos. São freqüentemente
encontrados em tocas de outros animais como tatus , buracos em
paredes de construções, ocos de paus ou bambus ou
similares. Em matas fechadas, devido a pouca luz em seu interior,
podem ser visto mesmo durante o dia, inclusive ativos a procura
de possíveis animais ou o próprio homem para ser
sugado.
DIAGNÓSTICO
- Existe um teste , criado pelo cientista Brasileiro Montenegro
no ano de 1926, bastante eficiente. Trata-se de uma intradermorreação,
chamada em sua homenagem por Reação de Montenegro,
consistindo-se de uma simples reação alérgica,
obtida pela inoculação por via intradérmica
de uma suspensão de leptomonas às quais foi juntadoo
fenol para sua esterilização.
TRATAMENTO
- Vários medicamentos quimioterápicos, como o Tártaro
Emético, Tartarato de sódio e antimonila, Fuadina,
Eparseno (Amino-arseno-fenol), arsenito de sódio, e o glutamato
de antimônio sódico, entre outros, foram já
utilizados, porém todos determinando paralelamente graves
reações secundárias , o que inviabiliza seu
tratamento, a não ser em pouquíssimos casos, e nestes
obrigando acompanhamento médico direto e permanente.
VACINAÇÃO
PREVENTIVA - O médico Brasileiro Samuel Barnsley Pessôa,
professor da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo
, já falecido, no ano de 1939 empregou com sucesso uma
vacina preparada por cultura do protozoário em suspensão
fenolada, vacina essa aplicada em três doses. Tal vacina
foi aplicada em localidade altamente endêmica, com pleno
sucesso. Em animais, no entretanto, ainda não empregada
por motivo que desconheço.
Dr.
Carmello Liberato Thadei - Médico Veterinário -
CRMV-SP-0442